terça-feira, julho 04, 2006

 

Um episódio

Aquele era um sitio tão bom como qualquer outro. Sentou-se. À espera. A toda à volta a vida corria a bom passo. Pessoas e carros. Mais carros e mais pessoas. Ocasionalmente, alguém cruzava o olhar com o seu. Não que a sua vista se detivesse, por mais do que um breve momento, num sitio só. A maior parte dos olhares não lhe eram dirigidos é certo. Mas isso também não parecia importar agora, já se tinha despedido de toda a gente que lhe importava.
Chegara ali e tudo aquilo que conseguia agora fazer era soltar uns lamentos. Ao vento. Queixava-se de tudo. Queixava-se das dores que tinha e daquelas que ainda se conseguia lembrar. Involuntariamente dava por si a pensar no tempo e a pintá-lo, como se fosse um filme. A principio, desordenadamente. Depois as coisas encadeavam-se como num verdadeiro guião. À medida que as lembranças se tornavam mais vivas.
Em certos momentos, dava por si a soltar um lamento. Saia-lhe do peito, da boca e da garganta, assim. Sem controlo. Eram lamentos longos, profundos. O corpo todo atrás.
Numa das vezes, enlevado por uma memória, cheia de calor e bem estar, saiu-lhe uma lágrima e um esgar de sorriso. Afinal aquilo era dele. Era ele. Tinha história. Podia já ter passado e estar desaparecido como que por um acaso, mas tinha existido.
Mesmo assim foi demais. Naquele momento precisava de tudo aquilo que não tinha. E já não tinha mais forças para ir à procura ou ficar à espera de um alento num olhar.
Sobravam-lhe, contudo, para fazer aquilo que o tinha trazido ali, percebia agora.
Carros a buzinar, cabeças a voltarem-se num instante. Servia perfeitamente para lhe preencher o espaço de consciência que restava.
Atravessou.

Comments:
da-se. Os teus níveis de serotonina andam em baixo?
 
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