terça-feira, junho 28, 2005

 

CAIXA DE FÓSFOROS



Li uma vez que um professor de Lógica, logo na primeira aula, interpelava os alunos. Exibia na mão uma caixa de fósforos e perguntava "O que isto?" Entre os alunos intrigados alguém acabava por responder - "Uma caixa de fósforos." O professor retorquia-lhe que estava errado. "Caixa de fósforos" é um som. "Isto é isto". Não se trata de um mero trocadilho sobre o significado e o significante ou uma alegoria do símbolo. A distinção é ontológica. No Zen japonês diz-se que confundir as coisas com as palavras que as representam é como confundir a Lua com o dedo que para ela aponta. É um equívoco. (Assim como ao encontrar um sinal de sentido obrigatório não trepamos pelo sinal acima...) Um dos objectivos no Zen é criar as condições mentais, por via de uma acumulação de paradoxos ou exercícios de atenção, para atingir um estado de desconceptualização absoluto relativamente à Realidade. Como em ultima análise nada persiste num estatuto de existência senão em relação com outras coisas e sobretudo com as palavras e os conceitos que se lhes associam, o Mundo é essencialmente um artefacto. As coisas não têm, portanto, natureza intrínseca. São construídas de relações. (Uma imagem possível no Budismo é, por exemplo, questionarmo-nos acerca do que é, por exemplo, uma esferográfica. Retirado o canhão, a tampa, a carga e postos lado a lado, onde está de facto a esferográfica?).O Mundo é, deste modo, uma mera construção da linguagem. Uma narrativa, como agora se diz. Se calhar, como no Zen, basta que nos apontem na direcção certa, olhar pelo canto do olho e zás! Ver o que afinal sempre ali esteve. Isto leva-nos ao Idealismo radical, pois implica que a distinção entre sujeito e objecto é também fruto de um erro de perspectiva. Os pensamentos no cérebro do observador acerca do objecto são ambos objectos e movimemtos da mesma Realidade. (É um erro do comparável a alguém que veja através de uma fenda, um gato a passar, vê primeiro a cabeça e depois a cauda. Pode inferir que a cabeça é distinta da cauda e mais que a cabeça é a causa da cauda. No entanto é o mesmo gato). isto é, o fazedor-do-mapa-mundi (o observador, o O Mundo e o Mapa são ontologicamente indissociáveis. Quem sabe, apenas uma imensa reificação do Mundo pela linguagem. Isto é, pela linguagem elevamos ao estatuto de existente coisas que não existem de facto, como tal. Isto é um problema antigo, é sabido. Diz um provérbio basco: "Só existe o que tem nome". Nesse caso, inclui-se tudo, mesmo a nossa própria identidade como sujeitos, pois verifica-se que tal distinção é falha de sentido ontológico. Então onde ficamos? De quem é a narrativa que cria o Mundo? E mais fundo ainda: - porque é que em vez de nada existe alguma coisa? No Ocidente uma pessoa - Schoppenhauer - compreendeu isto e intuiu a resposta: a narrativa é do Vazio e da sua Vontade. O Universo, apenas Ele, auto-observa-se e evolui para se auto-transcender. Mas transcender o quê, se já contêm tudo e todas as possibilidades em Si mesmo? Daqui a uns largos biliões de biliões de anos o Universo é uma uniforme sopa fria à temperatura de 6º Kelvin. Pode voltar ou não a colapsar sobre Si-Próprio como dizem algumas cosmologias actuais e cosmogonias antigas, como a Hindú, numa cósmica respiração de Brahma. Mas no fim, mesmo quando não há nada e o Vazio se encontra só consigo próprio (mais uma vez ou de vez) fica sempre a Vontade.

Como bem sabia também o António Variações.

Comments:
Retenho, para já, pois o texto, como é teu hábito, é complexo, a Vontade. É sobre ela que agimos de facto. Mas a questão da transcendência assume foros de desistência, consoante o caso a que é aplicada. Vontade consciente ou Vontade inconsciente?
 
Xi patrão! Mesmo assim a filosofia ainda faz sentido, bem como todos nós. Viva a batata frita!
 
Sim, não acho que o Universo seja um enorme amontoado fortuito e absurdo. Já demos para esse peditório.
 
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