quarta-feira, maio 18, 2005

 

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA?

Só li o livro do José Gil até meio. Confesso que progredi com alguma dificuldade, pois o autor alterna entre estilos de linguagem mais banais e o jargão filosófico com laivos pós modernos que chegam a ser vazios e desagradáveis. Basicamente, entendi que o autor propõe que, como caracteristica atávica, nós os portugueses, tememos o acto de nos responsabilização explícita pelos nossos actos como cidadãos. Isto é, o acto de nos inscrevermos no tecido da realidade consensual da vida em sociedade. Concordo. Existe em Portugal,uma cultura perversa de não assumir de forma consciente e consequente aquilo que fazemos (ou não) como pessoas com um papel definido. Tome-se um caso exemplar de distorcão, em termos de relações interpessoais - A Administração Pública. Neste contexto, a responsabilização difusa como modus faciendi instituído e tacitamente aceite , quer do acto, quer da inacção, são usados como meio normal de estabelecer relacionamentos institucionais, e inter-pessoais. Defensivamente, um funcionário quando interpelado num assunto cujas implicações o ultrapassam ou desconhece escuda-se num - "ah, isso não pode ser" - isto é, recusa a inscrição. Ou então, reporta a responsabilidade a instâncias da hierarquia que pela distância se diluem ou ganham estatuto de inatingíveis. Experimente-se pedir "ponha-me isso por escrito" e o caso muda radicalmente de figura. Ao forçarmos a responsabilização, obrigamos à inscrição formal e o assunto frequentemente resolve-se, por via travessa, pois o medo da responsabilização é mais forte que a inacção.

Diz o José Gil, que este "nevoeiro" mental deriva do estado de infantilização prolongado a que fomos colectivamente sujeitos pelo salazarismo. Tendo a concordar. Daí também consequências reconhecidas como debilidades civilizacionais, seja por exemplo, a falta de entrozamento e horizontalidade na sociedade cívil viz. a falta de associações com intervenção no social e política independente e específica relevante (e.g.ONG´s)[Abro um parentesis para dizer que tristemente e frequentemente, as nossas ONG´s são instâncias de pseudo-cidadania, intrumentalizados pelas diversas forças políticas].

É medo, pois então. Medo e falta de coragem de sermos cidadãos autónomos e adultos, desvinculados dos vícios paternalistas. Pode-se ir mais longe que o salazarismo. Outrora uma nacão poderosa, potência colonial, vivemos agora reduzidos e ultrapassados por outras nações. Vivemos um estado colectivo de angústia doentia convencidos do nosso falhanço. No fundo, talvez seja um estado de auto-indulgência confortável, mas que nos faz correr risco de termos ultrapassado o ponto de não-retorno da pertença ao Primeiro Mundo. [Excitamo-nos agora com a "ameaça" da invasão comercial chinesa, mas não nos preocupamos em exportar aquilo que eles não conseguem (por enquanto) produzir- tecnologia (e.g. informação, bio-tecnologia). Solidariedade aparte com as famílias dos operários desqualificados que fazem roupa barata e sapatos de imitação, sobrenadamos mal à superfície do capitalismo global. Por pouco tempo, pois seremos forçados, sem apelo nem agravo, a abandonar essas áreas da industria, agora tomadas pelo Terceiro Mundo]. Novamente é medo de inscrição no pelotão da frente do mundo ocidental, ao qual pertencemos quer queiramos quer não.

A verdadeira geração-rasca (os cinquentõs agora no Poder), muito queimada dos atavismos moles e maliciosos do salazarismo, apesar da capa de modernidade sem direcção definida que se seguiu à Revolução, vai estrebuchar e apegar-se ao Poder. Claramente não são eles que nos vão livrar do nevoeiro. Porque ninguém nos vai salvar senão nós próprios.

Em face de ataques, em última análise à nossa integridade como nação (e.g. a Constituição Europeia centralista franco-alemã) e mais então esta herança nevoenta de adolescente que não quer crescer, vê-mo-nos na contingência de re-editarmos a novecentista Questão Portuguesa: - Portugal é viável ou faz sentido? Na altura, a questão punha-se a propósito da perda da colónia do Brasil. [Se calhar se se voltasse a recuperar a relação complexadamente perdida com o Brasil nos tornasse-mos mais definidos e fortes...].

Pode-se ficar na Esperança ou então esperar que sejamos levados na onda globalizadora da Europa que nos arraste para o salto qualitativo de progresso económico, social e ambiental. Para isso há que combater e envergonhar publicamente em pelourinho aqueles que ainda exibem a sua tacanhez corrupta e chicoesperta, , como motivo de orgulho pessoal e de representante típico da raça. [Por exemplo, é inaceitável que alguém se orgulhe publicamente, no café ou na televisão, de fugir aos impostos. Quem não paga rouba os que pagam. Pura e simplesmente].

Vê-se, com esperança e agrado, que as gerações dos menos que 40 anos são mais sinceros, explícitos, assertivos, responsáveis e positivos que os seus antecessores maliciosos, dissimulados e auto-indulgentes. Não falo de yuppies, pois esse é um ramo degenerado. Que os há, mas só têm importância quando, por descuido atingem o Poder (ex. Paulo Portas & Santana Lopes). Mas o portugueses não são estúpidos a esse ponto, pois não são estúpidos de todo. Os com trinta e quarenta anos têm realidades com que lidar mais concretas e definidas. Há menos lugar a posicionamentos protegidos nas instituições (o emprego público ou numa mesma empresa toda a vida, por exemplo) e isto dá-lhes mais rigor e força pessoal. Talvez a memória obscura de traumas como a Ditadura, também já não lhes diga muito em termos emocionais. E ainda bem.

Talvez de acontecimentos como a II Grande Guerra, só tenhamos tido algumas dificuldades mais vagas comparadas a bombardeamentos e refúgiados em massa como a fome e pobreza. E isso não nos tenha dado o electrochoque civilizacional necessário e nos digam, que nisto do progresso sustentado e digno, não se possam queimar etapas. Deixei de acreditar nisso e agora acredito nos novos e na inevitabilidade, por moto próprio ou levados na onda, da nossa passagem colectiva á idade adulta. Os novos, que tudo de bom e de mau aprenderam com os mais velhos, são mais crescidos.


Comments:
Como resumo de uma espécie de visão pessoal da sociedade/mundo em que vivemos não está nada mal. Agrada-me muito o facto de mesmo não tendo lido o livro por completo, sejas capaz de formular um juízo sem reservas. É disto que temos de ser capazes em todas as fases da vida, assinando por baixo. Assumindo ou inscrevendo, consoante os casos. Por mim confesso que não me resta uma esperança por aí além. Sinto que estou a entrar na idade adulta e isso, ao invés de me dar uma visão esperançosa de um futuro melhor, está sim a fazer-me capaz de aceitar mais e mais. Com isto quero dizer que não me sinto um "motor" para a mudança, pelo menos no meu tempo de vida. Mas talvez seja esse o meu caminho. Ver e aceitar os caminhos dos outros, quer me agradem quer não. É seguir sem revolta. É de tudo tentar fazer um pouco. Mas isso é crescimento ou resignação?
 
Infelizmente essas características podem ter raízes mais fundas que as do salazarismo que poderão corresponder a imperativos biogeoclimáticos que ultrapassam a intervenção social e cultural justificando de um modo indelével esta nossa maneira de ser. Nomeadamente a sardinha assada. Viva o Benfica!
 
Pois, Fernando, é por causa do calor que trabalhamos pouco (olha os africanos, coitados). Julgo que a má qualidade genética tb. ajuda. São correlativas as características de mediocridade com o facto de sermos baixinhos, cabelo escuro e crespo, escorrermos gordura em vez de transpirarmos e usarmos bigodes farfalhudos.
 
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