terça-feira, maio 10, 2005

 

sobre a economia dos afectos...

(...) Portugal continua a ser, em muitos aspectos importantes, uma sociedade fechada, aberta à superfície, e fechada no interior. Actualmente, a reacção à abertura que se traduz pelo apego cada vez mais desesperado aos modelos antigos que que legitimavam o fechamento não produz novas ideias, novos modos de adaptação, novos discursos éticos. Agarramo-nos ao que já conhecemos e ao que nos habituámos - e que em nós se sedimentou - como a uma tábua de salvação contra os flagelos que entram pela porta meio aberta (em breve, escancarada) ao mundo.(...)

(...) Ou seja, aquele estranho efeito do afecto activo (como a alegria e o amor) que consiste em dar a ilusão da imortalidade (por isso o último desejo do moribundo é sentir-se amado), como se de uma inscrição eterna se tratasse, agia fortemente no familiarismo português. Porque sentíamos afectos (ternura, carinho, preocupação dos outros por nós, etc,) estávamos salvos. De quê? Precisamente, do desaparecimento sem deixar rasto, da existência que se sabe sem vestígios no futuro, apagando-se assim toda a sua presença no presente. Salvos da não-inscrição, quer dizer, radicalmente, da morte.(...)

in Portugal Hoje, O Medo de Existir, de José Gil

Comments:
Bom, já cá estive, mas como não tenho e-mail não posso aceitar o convite. Para breve. Espero. Abraços.
 
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